segunda-feira, 10 de abril de 2017

Morte e Vida de Um Peixe Ósseo


  Nasci peixe em água doce, mas antes que me desse conta, fui pescado. Cresci num belo e espaço aquário de águas cristalinas, no qual eu podia livremente nadar e mergulhar com profundidade. Mas conforme ia crescendo, o aquário tornava-se cada vez menor e insuficiente para atender à fome de minhas nadadeiras. Até o momento em que as paredes do aquário não resistiram mais à pressão exercida e se partiram.

  A partir disso, fui obrigado a viver em terra firme, onde a água é escassa, a profundidade proibida e os peixes são assados por preconceito daqueles que não sabem mergulhar, e por isso, odeiam a liberdade das águas turbulentas dos mares e rios, que arrasam as margens impostas, lavando e levando as contradições mais enraizadas.

  Por questão de sobrevivência, acostumei-me a andar sobre a terra, voar pelos céus, dançar sobre o fogo e nadar apenas nos intervalos, quando a chuva desaba das prateleiras do céu ou dos buracos do chuveiro, distante dos olhos opacos. Ocorre que um peixe, pode até (sobre)viver fora d’água, mas, cedo ou tarde, se não retornar ao seu habitat natural, morrerá.

  Porém, antes que comece a me debater no chão, despirei-me dessas vestes que acorrentam minhas nadadeiras, desses sapatos que aprisionam minha calda e distraidamente, sem medo ou ressentimento, darei o pulo ornamental mais alto e belo da história, sem ser visto, mergulharei pro-fundo e me deliciarei sem limites nas águas doces do prazeroso amor.



sexta-feira, 22 de julho de 2016

Quando Chove

(Today I Forgot My Umbrella – Leonid Afremov)

Todas as vezes que chove, penso comigo se não seriam as chuvas o choro dos céus. Mas ao lembrar-me do seco sertão, não consigo acreditar que poderia os céus serem tão cruéis. Porém, talvez estes estejam calejados quanto ao reiterado sofrimento e só chorem diante de alegrias. Ao ver um riso banguelo e amarelo, uma criança brincando com pedras quentes em cima de um chão rachado, a esperança molhada em prantos do sertanejo, a dança elegante sobre a miséria. Contudo, concluo que a crueldade dos céus continuaria, pois se fosse o contrário, os céus chorariam todo dia.
E cá estou eu, ajoelhado, com o queixo sobre as mãos e as mãos sobre o cume do sofá, observando as doces e salgadas lágrimas escorregarem do rosto dos céus. Meu gato Snow está ao meu lado, também a observar. Num dado momento ele me direciona seus grandes olhos azuis claro, agora tomados pela escuridão das íris diante da ausência de luz, numa expressão de angústia.
Pergunto-me se ele também estaria sentido esse cheiro que vem com as chuvas. Esse odor de terra molhada, de passado nostálgico e futuro apocalíptico, em que o presente parece estar escondido. O meu amigo felino ergue-se sobre as duas patas traseiras e me estende as patas dianteiras. Entendo o seu pedido e apesar da impossibilidade de um abraço que se enlaça, conforto-o no conforto dos meus braços.
Caminho até a cozinha e, devido à maresia trazida pela chuva, não provoco o delicioso cheiro de fumaça cafeinada, apenas esquento o café feito na insônia da noite anterior. Pego o pote de rosquinhas e sento-me à mesa. Talvez a vida seja apenas isto. Um café requentado e umas rosquinhas moles?
Os pingos d’água continuam a beijar o telhado, fabricando um barulho acalentador. Vem-me uma vontade de correr solto pela rua, com os olhos fechados e o peito aberto, permitindo a inundação da alma e o surgimento disfarçado das tímidas lágrimas, igualmente como quando corto uma cebola ou cai um cisco no olho.Mas o receio de um resfriado me faz vestir um casaco.
Não sei ao certo as circunstâncias, talvez a canção a tocar tenha servido como gatilho, mas me recordo do meu vizinho de infância, que padeceu sozinho. A humanidade desse tamanho e ele morre na companhia de ninguém. Fez por merecer? Alguém merece a solidão? Ou esta é só um grito sufocado por atenção? Será que ouvia uma canção de Raul, como fazia com frequência, em alto e bom som? Entristeceu-se ou sorriu porque ia? Teve tempo de perceber que partia? Tomava o último copo de vinho, o meu vizinho, que na presença de insetos e objetos, faleceu sozinho?
Por que tememos a felicidade? Sei que é perecível e na ânsia de aproveitá-la, acabo por antecipar o seu fim, acabo com a brincadeira, como fazia quando pequeno com as balas e pirulitos recheados, não saboreava com delicadeza, dava logo um jeito de mastigá-las. Mas devemos eternizar os momentos em que o nosso banco da roda gigante está lá no alto, perto do céu e das estrelas, permitindo-nos uma vista privilegiada da cidade iluminada, para quando o banco descer ao chão, possamos sair do parque sorridentes, sem inconformismos.

No dia de sua partida, não chovia. Ao contrário, havia um grande risco colorido nos céus e o sol sorria igual a gente quando ganha um abraço demorado daquela pessoa que gostamos. Aos poucos a queda d’água vai cessando. As interrogações vão tendo o mesmo destino. Choveu bastante lá fora. Mas a enxurrada foi aqui dentro, alagou e lavou muita coisa.

domingo, 5 de junho de 2016

Sem Apreço ao Preço

(Foto Autoral)

Encontrava-me no quarto olhando entediado para o teto. Havia alguns dias que não saia na tentativa de ficar íntimo de uma solidão forçada e artificial. De repente, o teto virou a face numa expressão de indignação. Ao declinar os olhos, vi que a parede frontal exibia a mesma expressão. Todo o quarto me olhava com reprovação e ao me pôr em pé, o chão ao invés de aceitar com submissão a força da gravidade, me empurrava para fora dali. Não me recordo se fui eu que abri a porta ou esta que com “gentileza” convidou-me a sair, apenas lembro que consegui pegar o casaco. Quando o último fio de linha saiu do quarto, a porta bateu-se com firmeza e imponência.
Do lado de fora, peguei e calcei com inveja o par de sapatos que tomava um agradável banho de sol e saí para a rua. O dia estava bem ensolarado para um dia de inverno. A saudade do céu pelo sol tinha se tornado insuportável afinal. Comecei a caminhar sem destino, havia saído de casa sem um propósito definido, ao contrário do que geralmente se faz. Ao invés de andar com os olhos atentos no chão, com a expectativa de achar algum dinheiro perdido, experimentei olhar para cima, para o teto do mundo, para as filas de árvores a desfilar, para as histórias ambulantes à minha volta, aos detalhes que costuram e  remendam as lacunas da vida e permitem uma existência mais verdadeira. Selecionei uma playlist na mente e pus para tocar com suavidade como trilha sonora daquele momento.
Senti-me estúpido ao pensar sobre o quanto caminhamos preocupados com o dinheiro por vir e os problemas decorrentes de sua ausência, enquanto o noturno céu estrelado,  o diurno céu iluminado ou o céu nublado, que trabalha sem escala definida, convida-nos a contemplá-los. Do mesmo modo fazem as árvores do outono, ao pousarem nuas em público e as saborosas flores ao exibirem-se, gratuitamente, com cor, brilho e cheiro. Mas é difícil apreciar o gratuito, quando estamos acostumados a valorizar o que se paga, o que se tem preço, e acabamos por reproduzir isso em nossas relações.
No tempo em que refletia sobre isso, esqueci-me que olhava para o alto e quase fui cegado pela beleza (da luz) solar. Ao descer os olhos vejo uma senhora passar indiferente por um mendigo que estendia uma pedinte tigela e fazer logo em seguida o fervoroso sinal da cruz. Duas dúvidas surgiram, a primeira é se a cristã senhora pedia ajuda e proteção para ela ou para o mendigo, a segunda é se eu deveria rir ou chorar daquela ironia materializada. Depois pensei comigo “É Jesus… os caras que dificultam suas palavras estão vencendo para os que tentam facilitá-las.” Estava com dificuldades financeiras por aqueles dias, mas tirei um pouco do pouco que tinha e dei ao mendigo. Senti-me culpado por ele ter agradecido, condenado por eu ter sentido alegria no meu gesto.
Continuei minha caminhada e eis que passo em frente à belíssima igreja que há um dia atrás, cobraram-me  que para eu pudesse ver sua beleza interior. Um santuário levantado por mãos vazias, enfeitada com ouro extorquido, preenchida por falidos, cobrava-me para que pudesse admirar uma beleza toda solidificada no roubo. Pensei comigo pela segunda vez: “É Jesus, você expulsou os vendilhões do templo, mas estes voltaram e associaram-se ao santuário… eles estão realmente ganhando.”
Logo à frente prendo os olhos num livro exposto em uma livraria. Havia lido o mesmo há vários giros do ponteiro atrás, após furtá-lo. Agora estava ali sendo ofertado por um preço muito maior que o de qualquer item de uma cesta básica. Quando irão perceber que alimento para a cabeça é tão necessário quanto o que acalenta a fúria de um estômago faminto? Como ousam aprisionar os pensamentos livres e vendê-los como escravos? Eles,decididamente, não têm nenhuma intenção de que os inimigos estejam informados. A barriga cheia tem serventia, a mente não.
Nenhuma novidade. Num mundo onde se paga para sobreviver, pessoas são escravizadas, sem correntes nem chicote, mas pela necessidade de ter dinheiro, para alimentar o estômago faminto, no inverno, ter água quente no chuveiro e quando morrer, ser enterrado pelo coveiro. Para pagar as anestesias sociais que aliviam, por pouco tempo, as almas escravizadas dos temores e tormentos, causados  pelos novos senhores de engenho, mas  que acabam por esconder as chaves que abrem os cativeiros.
Muitos dos alimentos da alma sofreram atribuição de preço. O teatro sorridente, as artes plásticas comoventes, a música que apenas se sente, o cinema mudo e o falador, puseram preço até nos nossos dilemas, em como expressamos o amor, a intensidade do sentimento. E cada vez está mais difícil esquivar-se dos algarismos. Mas os conselhos de amigo continuam gratuitos, assim como as reais gentilezas, os abraços amorosos, os sorrisos inocentes, as profundas respiradas e a sensação temporária de liberdade que causam, os suculentos beijos, apenas os suculentos, e se não forem de grátis, os, avisadamente, furtados.
Percebo que uso uma camisa pela qual paguei um bom preço só porque contém a caricatura de um artista por mim apreciado. O preço não valia nem o trabalho nem o material. Por um segundo, recordei-me de Gandhi e pensei em rasgar todas as minhas roupas e costurar eu mesmo as minhas vestes. Imaginei o tamanho do trabalho e o pensamento acabou por fugir. Desisti.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Anjo Mortal

(Pai e Filho em Skagen - Michael Ancher)

As lágrimas caem dos céus, deixando-se levarem pela janela, paralelas às minhas. Tudo ao meu redor é nostálgico. Vestígios de lembranças. Corro os olhos minuciosamente pela casa. Os momentos vividos me inundam, afogando os mais breves pensamentos, até transbordarem-se pelos meus olhos de novo.
A recordação de como sua breve ausência doía, impõe-se. A frustração acampava o dia quando o seu tranquilizante riso não nos cumprimentava. Sua dose abundante de alegria imobilizava qualquer elefante de tristeza. Como nos tornamos dependentes de quem é alegre.
Uma tosse escapa da minha boca e anuncia a chegada de uma virose. A lembrança de seus ensinamentos de curandeiro é imediata. Aprendi, dentre os muitos remédios,o para virose: mel, alho e limão. A extrair da natureza a saúde que essa oferece. Estudando-se a fundo, poderia a farmacologia supor a insuficiência ou ineficácia de alguns remédios, mas o elemento principal é invisível às lentes da ciência. Cuidado. Esse tentáculo do amor é a substância mor de qualquer remédio, tratamento ou cura. Quando o amor nos quer bem, nós nos queremos bem também.
Sinto-me levemente escorregar, e ao olhar para o chão de cera amarela, que quando encerado brilha mais que mina de ouro, resgato a lembrança de quando eramos colocado sobre os seus pés e dançávamos valsas, forrós e boleros na elegância de um ballet russo. A raça humana foi confeccionada sem a dádiva das asas e sofremos todos a frustração decorrente disso, Ícaro que o diga. Contudo, aprendi bailando com meu pai, que com ossos de imaginação e penas de felicidade, voa-se livre como um gavião selvagem. Discordem quantos ornitólogos quiserem, mas só voa quem está feliz. Como os pássaros. Pena pelas tristes galinhas e gratidão pelas baratas infelizes.
Dirijo-me ao quintal e sento numa cadeira para fumar um cigarro. O camelo estacionado na parede cospe a lembrança de quando ele regulou em exagero o freio dianteiro da bicicleta e ao testá-lo fui arremessado de joelhos ao chão e por pouco não fui pisado por essa.  Meu pai que estava a me olhar correu desesperado ao meu encontro e sentiu-se tristemente culpado. Ficou a lição. Por mais que tenhamos a boa intenção de ajudar o outro, nem sempre seremos capazes de fazê-lo ou de estarmos livres do insucesso, das consequências indesejadas ou da incompreensão.
Avisto, quase que escondida, a churrasqueira enferrujada e aposentada de sua utilidade e rememoro deliciosos domingos. Ela também deve sentir muita a falta dele. Presenciou inúmeras vezes, a pequenina chama do fósforo  nascer faminta e com rapidez correr para  abocanhar  a flor de pão molhada com álcool e prostrada num copo descartável colocado por meu pai.  E num processo de crescimento, muito mais ligeiro que o humano, tornar-se adulta e espaçosa para enfim, assar a carne a ser saboreada na tarde do domingo. Tarde, porque como todos nós sabemos almoçar cedo aos domingos pode causar morte instantânea.
Após a falta foi que aprendi o significado destes momentos e outros, em que meu pai se alegrava em construir e os quais tinha plena consciência do seu significado. A felicidade habita na simplicidade de tudo o que constitui a vida. É clichê já desbotado, mas é sincero. E por supormos saber é que o óbvio ululante caminha mudo e despercebido. É necessário desprendimento e atenciosa prática para que consigamos extrair a seiva da felicidade que bombeia nas coisas simples.
Nesses momentos, sentia uma alegria constante e sem razões claras percorrer o ambiente. Não estava na fartura de comida, na ausência de obrigações, na bebida distribuída nos copos nem na maresia dominical.  Estava em estarmos juntos, no cozinhar carinhoso para quem ama, nas músicas gostosas que compuseram as trilhas sonoras dessas vivências e que se constituem em instrumento de recordação. Estava e está nos gestos de gentileza e no sentimento prazeroso de estar rodeado de amores e apreciar a existência de suas presenças em nossas vidas.  
A descoberta é uma loteria, pode ser algo que traga tristeza, alegria ou ambos. Quando ouvi o sussurro da palavra maligno e a reação de meu pai, mesmo com a pouca vivência de uma criança, compreendi o significado. A morte anunciada traz consigo dor constante, mas também aprendizado. A convivência diária com a morte, mesmo que não a sua, ressignifica substancialmente como você encara a vida. Não viemos com prazo de validade e estamos sempre tentando camuflar a nossa fugacidade. Isto não é apologia à morbidez, é viver com sobriedade. Tornei-me a contradição de um fruto de casca ainda verde e interior já amadurecido.
Compreendi que não temos controle sobre a nossa morte. Da vida, temos em reduzido. As circunstâncias estão lançadas. Temos a faculdade de interpretá-las, posicionar-nos e agir. A condução do barco da vida nas águas do destino será de acordo à forma com que você usa sua faculdade. Há momentos tempestuosos e desoladores. Outros de ensolarada tranquilidade e paz. Saibamos navegar cada momento. A vida toca por reprodução aleatória e ininterrupta, delicie-se.

   Os aprendizados foram muitos, assim como as dificuldades em continuar a relembrá-los. Ponho bebida em um copo e acendo outro cigarro. As lágrimas continuam a escorrer como se tivessem a recompensar as que eu impedi de nascerem. Tento sair do museu onde as lembranças estão penduradas, mas me é muito difícil, nunca consegui equilibrar os sentimentos antagônicos que a saudade evoca. Seleciono algumas canções (“Ê Meu Pai”, “Retrovisor”, “Marvin”, “Vento no Litoral”, “Gostava Tanto de Você”, "Naquela Mesa"...) e coloco para ouvir. Enquanto a saudade rasga minha alma como uma navalha a escorrer pela pele, tento manter tão somente o sentimento de gratidão de ter amado e ter sido amado por um anjo mortal, que, muito além de um poderoso herói que usa a cueca sobre as calças, cumpriu a difícil missão de ser um exemplo de amor.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Última Conversa

(Auto Retrato Com a Morte Tocando Violino - Arnold Böcklin)

A noite estava amena. Charles, deitado na cama de seu quarto, observava a escuridão dos céus pela incompleta abertura da janela. Um vento calmo, porém marcante, escancarou as janelas, e abraçou Charles.  Um frio cadavérico lhe excitou os poros. Alguém entrou pela porta e sentou-se na poltrona ao lado da cama:
- Boa noite Charles.
- Boa noite.  Já esperava sua visita.
- Ora essa, não sabia que eu era tão previsível.
- Posso fumar um cigarro não é mesmo? - enquanto falava, inclinou-se à escrivaninha para apanhar um cigarro. - afinal de contas, que diferença faz mais?
- Quem sou eu pra ti dizeres algo?
Rolou a engrenagem do isqueiro e o fogo fez o resto. Deu uma leve tragada, saboreando, pausadamente, cada momento. A fumaça ao sair, desencadeou uma crise de tosses, que finalizou com um canal de sangue escorrendo pela boca, como uma macabra cachoeira.
- Como deve ser do lado de lá? – Perguntou Charles, limpando o sangue, com o lençol da cama, e dando outra desapressada tragada.
- Nunca morri pra saber. Charles quis dar uma gostosa risada, daquelas bem barulhentas e sinceras, mas o máximo que conseguiu foi inclinar o canto direito da boca.
- Tanto faz, a ideia de nenhum dos dois nunca me agradou muito.
- Essas coisas jamais lhe preocuparam Charles. Pessoas que se preocupam com tais coisas, não vivem como você, ou melhor, não vivem.  Charles ficou em silêncio. Talvez pensando no passado, talvez pensando se haveria tempo para arrependimentos, ou apenas tentava respirar. Outra seqüência de tosses esmurrou seus pulmões, quebrando o silêncio que reinava.
- Me dê mais alguns minutos de lembranças, é tudo que me sobra no fim...
- Não posso te permitir esse alívio. Você já escapou muitas vezes de mim. Mas realmente gostei de você Charles. Você é um cara legal. Te darei mais 5 segundos.
O ar foi ficando cada vez mais raro nos pulmões de Charles, assim como a luz em seus olhos. De todas as aventuras e loucuras que vivera, nenhuma ficou como ultima lembrança. Essa foi sim, uma de sua infância. Devia ter por volta de uns 10 anos. Corria na garupa da moto com seu pai. A brisa forte causada pela velocidade lhe refrescava do verão, e Charles com seus curtos braços tentando fazer com que eles se encontrassem no umbigo de seu pai, sem obter êxito. Mas não importava, era mais por capricho que ele queria, pois ele se sentia seguro. Realmente protegido, e feliz. É nesses momentos sem justificativas e razões que a felicidade invade. Tão breve como o alívio da sombra, do remédio ou da morte.

sábado, 24 de outubro de 2015

Mendigos de Amor

(O Mendigo - Vanessa Rosa)

Se julgassem a humanidade pelos pêlos gélidos e olhos famintos de um mendigo, pelos meus,  a condenação seria certa. Sete a zero no tribunal do júri.  As pessoas vão e voltam. Direita, esquerda. Tão apressadas. Escravas de um ritmo alheio. Dominadas por um tempo artificial. Não me enxergam. Passam por mim,  inspiram o odor, fingem ser lixo urbano e seguem adiante.  Hey!!! Estou aqui!  Sou esse espectro fedorento e encardido. Esse imundo ponto negro em meio a multidão.. Talvez se cantasse ou tocasse algum instrumento musical, eles me veriam. Ou quem sabe um cartaz apocalíptico: “ O Fim está próximo do fim”. Talvez. Este irá jogar alguma moeda:
- Obrigado! Tenha um dia agradável!
Sempre acerto. Sempre não, quase. Seria muita pretensão. Que horas são? Pela posição do sol e gravidade dos raios solares, diria que umas 07h20min. Vejamos então. Aquele rapaz sonolento ali. Não me dará qualquer dinheiro, mas me informará as horas. 07h25min. Quase. Está perto de passar o Sr. Moreira. Ele mora a umas duas quadras daqui. Todos os dias em que passa para ir ao trabalho, lança-me uma moeda. Nada mais. É um miserável. Fantasma para os filhos. Moedor de carne para a esposa. Placa torta indicando o caminho do dinheiro público. Um verme humano. Lá vem ele:
- ...
Não o agradeço, afinal, o dinheiro não lhe pertence. Aceito porque preciso. Creio que ele faça isso na ilusão de que tal gesto sopese o seu histórico de qualidades igual às minhas vestes e anule o peso de sua consciência.  Na esperança de que o travesseiro aguente diariamente o peso de sua cabeça e o deixe dormir. Mas o que é uma gota de sabão em meio a um mar de lama e fezes? Inútil.
Agora é hora de desfilar a Mariana. Nunca me deu um centavo. Não reclamo. Todos os dias, exceto nos dias em que recebe seu salário ou não apanha do marido, passa por mim, para, olha-me com pena, molha os olhos, faz uma careta e se entristece. Obedeço ao que me pede. Declino os cantos  da boca e enfeito o prato de miséria que eufemiza a sua vida. 
Lá vem uma criança acompanhada de seu pai. Como gosto das crianças. São tão humanas e sinceras antes da família e escola estragá-las. Sempre  me notam, e quando me notam, percebem que há erros nesse mundo  para além  daqueles dos deveres de matemática e português. Umas se entristecem verdadeiramente com a minha figura. Umas querem me abraçar, mas são impedidas. Há outras que querem compartilhar sua comida comigo ou me dar suas economias. Soutou as mãos  das de seu pai. Que olhar inconformado. Está sacando suas moedinhas do bolso:
-Não filha, não alimente o vício desse alcoolista.
- Mas papai, ele está precisando...
- Já lhe disse que não! Vamos, se não você irá se atrasar para a aula de religião.
-Lembre-se que o amor é a maior religião mocinha!
- Cala boca, seu bêbado imundo!
Vejam vocês. Que preconceito. Acham que todos os moradores de rua são alcoolistas. E eu aqui sóbrio desde a hora em que fui dormir. Cada qual com suas anestesias. Compreendem perfeitamente a necessidade de beberem para aliviar o estresse do dia a dia ou iludir os  problemas. Por que nós então não podemos também anestesiar a nossa realidade,  que é um bocadinho mais difícil? Quanto mais forte a dor, maior é a exigência de morfina...
- Vai trabalhar vagabundo!!!
Há esses também. Acreditam que não trabalhamos porque não queremos e que preferimos ficar deitados na rede da preguiça. Mas é claro! É muito fácil conseguir emprego personificado de esgoto e dificuldades, bem como é bastante agradável dormir refém do frio ou estar sempre em fuga da fome. Outros têm a crença religiosa de que é culpa exclusiva do Estado a situação dos habitantes dos becos, ruas, bancos, escadas de igreja e das demais mazelas sociais.  E dormem tranquilos, transferindo sua fatia de responsabilidade  para uma entidade meta-física ou qualquer outra pessoa. “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro, evita o aperto de mão de um possível aliado”.
As pessoas se expressam perante mim com sinceridade. Vomitam opiniões indigestas e pensamentos envenenados. Julgam-me um nada. Diante do nada, não há nada com que se preocupar. É como se as roupas dilaceradas pelo uso, a pele saudosa de banho e minha áurea de fedor aniquilassem a minha humanidade. Para além do meu rasgado modelito do verão, possuo um confortável colchão de papelão, um pano de derrotas invictas para os ventos gélidos, um sanduíche bem (do) passado, a tigela com a moeda do Sr. Moreira, um livro de poesias  achado no lixo do bancário que mora três ruas abaixo e esse pequeno cão, chamado  “Liso”, que é tão meu quanto eu sou dele, e que faz questão de me lembrar sempre sobre o que importa. No fim, só tenho amor a oferecer, mas nesse mundo de posses,  amor é coisa muito barata para se ter.
Outrora, uma confortável vida financeira me tinha. Contudo, esta me pregou uma peça, da qual não aplaudi no final. Mas isto é uma outra história e demasiadamente longa. Basta saberem que eu tinha muitas frações do deus do mercado e que os perdi. Diante disto, vocês poderiam  me questionar por que então não extirpo da face terrena, essa vida de perdas e dificuldades materiais?
Não sejamos pessimistas fatais. A vida é um grande espetáculo de beleza e prazer. Basta  que nos atentemos mais para as comédias e contemplações do que para as tragédias e dramas. É uma delícia apreciar o sol nascer ao fundo da livraria. Igualmente gostoso comer um pastel de nata e saborear o doce do pastel contrastar com o atendimento da vendedora. Tomar um café e fumar um cigarro, assistindo a elegância com que a fumaça de ambos dançam um tango argentino. Observar o amor do casal, que flutuando sob o banco da praça se consomem em beijos, transbordar ao chão, junto de onde os pombos fazem  as suas refeições. Agradecer à Dona Maria, pelos sorrisos que ela joga da janela, enquanto rega de alegria as suas plantas. Oh! Doce Maria! E mesmo nas madrugadas  em que os sopros do vento confundem-se com  abraços da morte, olhar para o alto e contemplar a majestosa lua dourada, descer humildemente dos céus.
Obrigado aos senhores e senhoras, ratos e baratas, pela atenção. Irei me dirigir agora para a única lanchonete que me permite entrar. A fome está a horas, talvez dias, torturando meu estômago, e esse sanduíche é minha reserva  para tempos difíceis. Como estou com saudades de um café! Prometo que caso dê para comprar um pão, trago um pedaço para vocês.  Minhas pernas sempre a me surpreender. Levantando-me mesmo com quantidades cada vez menores de energia. Como é brilhante os limites quebrados pelo corpo. Não é verdade? Até breve! Espero que esteja trabalhando a Bárbara. Gosto muito das músicas que ela põe para tocar no ambiente.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

As Mulheres de Minha Vida - O Conto Fofo

(Death and Life - Gustav Klimt)

Minha primeira respirada no mundo foi difícil, logo chorei. Não poderia ser diferente, afinal, fui puxado do meu caloroso ventre materno e para completar, as primeiras mãos que me tocam, são estranhas a mim. Mas meu desespero não foi eterno, depois de certo tempo, que ainda era desconhecido para mim, senti mãos doces me envolverem, e mesmo com meus minúsculos olhos fechados, sabia que a dona das mãos me olhava, com aquele olhar que nada faz além de contemplar. Percebi naquele exato momento, que tais olhos me acompanhariam pelo resto de minha existência.
Na minha infância, por volta dos sete ou oito anos, uma outra mulher, ou melhor, uma menina, entrou na minha vida. Eu em minha ilustre sabedoria infantil, não sabia significados, principalmente do amor, a única coisa que tinha convicção é de que um sorriso brotava no jardim do meu rosto, toda vez que a via. Ela, com seus longos cabelos negros e seu jeitinho angelical, fazia meu interior transbordar de felicidade. Meus caros, não há na terra ou no universo, algo mais belo que o amor inocente. É um amor unilateral, que não espera reciprocidade, é negócio sem pagamento. Sentimento bobo, que não se constrói por força do sentimento de posse, muito pelo contrário, nasce da liberdade, da liberdade que só as crianças entendem.  
Não sei por quais motivos, mas, um novo amor só voltou a me procurar na juventude, em sua forma platônica. É, talvez, a forma mais brutal, diria de certa forma, até masoquista. Você se apaixona por uma pessoa, faz dela uma deusa, amando seus encantos e amando ainda mais seus defeitos. É pura perfeição aos olhos de quem ama. E a grande dor dos que amam de forma platônica é que por mais que pensem querer a reciprocidade do amor, na realidade, internamente clamam pela dor, rezam pela distância, e no sofrimento amam ainda mais. Portanto, o amor platônico nada mais é do que um autoflagelo sentimental.
Para se recuperar dessa tortuosa fatia da minha vida, entreguei-me ao Sansara. Não poderei dizer que encontrei alento, carinho ou coisa do tipo, talvez em doses homeopáticas. Para ser honesto, achei noites sem ninar, ilusões embaladas, mentiras engarrafadas e variadas transas vazias de profundo afeto. Não sei dizer se amei alguma ou algumas dessas mulheres. Apesar de não recordar mais seus nomes, creio eu ter amado todas, de certo modo. E quando digo todas, falo por não ser possível o amor nessa época, se não for levado em conta na sua completude. Amei assim: Marias, Joanas e Madalenas; loiras, castanhas, ruivas e morenas; magras, fofas, altas e pequenas; casadas cansadas, solteiras de compromissos, namoradas da vida e putas. Ou não amei nenhuma.
Dizem as más e as boas línguas também, que não existe essa coisa de sua metade. Ou tais línguas estão erradas e eu estou certo, ou o contrário, mas acontece que encontrei a minha, e foi lá na casa dos trinta anos. Quando a conheci, senti que poderia esquecer toda a minha vida de esbórnia e álcool e a liberdade a ela atrelada sem lamento nenhum. Nosso relacionamento iniciou-se em êxtase como todo começo. Aos poucos foi amadurecendo, enfrentando barreiras, evoluindo. Não posso afirmar que nosso amor foi igual aqueles de filmes Hollywoodianos ou daqueles cotidianos, apenas nos amávamos e isso bastava.
Tivemos filhos, fotos, férias, cadeiras de balanço. Na velhice de nós dois a minha querida e odiosa morte com ciúmes, buscou-a primeiro, e isso me arrasou profundamente. Nunca compreendi essa senhora dos destinos, assim como as outras. E nesse joguinho de querer-lá e repulsar–lá, eis que essa também faz parte de mim.   Aos meus 90 e poucos anos, lembro com lágrimas, de alegria e saudade, a minha vida, e as mulheres que dela fizeram parte. Ah! Não poderia me esquecer da última mulher a po(u)sar na janela da minha vida. Dona Raimunda. É uma senhora de alma doce. Às oito da manhã vem derrubar a porta do meu quarto, aos berros:
-Seu Antônio, acorda!! O belo sol lá fora lhe espera para dar bom dia. Já tomou os remédios matinais???